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Tenho 5 Anos
Posted by Antonio
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sexta-feira, setembro 19, 2008
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Dos Botões
Vejo-te naquela névoa baixinha que enfeita os sonhos que abrem alas ao espavento da madrugada. Trazes contigo toda a vontade do mundo, avanças sem medo, corres na minha direcção como a parte pirosa de um filme, em câmara lenta, e desaguas um sorriso longitudinal no ar quase parado. Projectas para trás o penteado fora de moda, enquanto eu vacilo, algures entre a alteridade do espectador e o envolvimento da personagem. De pé à tua espera. Carente. Orgulhoso. Parado. Não sei se triste se contente, porque não me vejo, apenas me percepciono. O dia, entretanto, a fazer-me olhinhos, namoradeiro, enquanto as persianas fechadas rangem com o calor súbito da manhã e se espreguiçam, alheias. Então, como num pesadelo de criança cuja mãe lhe foge, ultrapassas-me o olhar, expectante para com o que encontras para além de mim, por cima do ombro da minha vista. Eu a chamar-te e tu agora de costas, sempre de costas, como se me tivesses atravessado num espectro. Viro-me para trás, a tempo de te ver desaparecer as fraldas da camisola suada na esquina. Fico pregado ao chão.Imóvel. Perdido. Tenho cinco anos e pregado ao chão. A minha mãe, que não me ouve: o elevador que cai e nunca se despenha. O meu corpo num ângulo estranho, desafiando as leis da gravidade, e eu a torcer a garganta, a espremer um grito, um alinhavar de sons escondidos. Rebolo. Suspiro contigo pelo teu passado. Acordo e abençoo o dia, agradecido, aliviado: não por ter entretanto acordado, mas sim por tu não teres parado de insistir. Por não te teres ido embora.